PROPOSTAS
PARA UM DEBATE PÚBLICO
A
iminente implantação da televisão digital
no Brasil vem suscitando uma série de questões extremamente
relevantes
para as orientações e escolhas dos diversos agentes
envolvidos no processo. A elucidação dessas questões,
como seria de se esperar, muitas vezes deriva do crivo e do interesse
de apenas uma das partes afetadas. A Universidade, como centro
de excelência em pesquisa, deve assumir a função
de mediadora dessa discussão. Sua tradição
em discussões intelectuais abertas e democráticas
a credencia como o local mais adequado para trazer, à luz
do debate público, as diversas posições e
para superar eventuais unilateralismos.
O Fórum de Políticas Públicas propõe-se
a organizar um debate, sediado na Universidade de São Paulo,
com os representantes dos principais agentes desse processo. Trata-se
de abrir um espaço para discutir questões e decisões
que deverão repercutir diretamente na vida dos brasileiros
nos próximos anos, com forte influência sobre o desenvolvimento
estratégico, tanto social, como cultural e tecnológico
do país.
O Brasil, nos próximos meses, será um dos últimos
grandes mercados a enfrentar a questão da digitalização
de seu sistema aberto de televisão. O governo federal,
credenciado não só pelo apoio popular, mas, sobretudo,
por uma incisiva preocupação com a coisa pública,
trouxe a si a responsabilidade de organizar esse processo. Um
dos propósitos do Fórum é contribuir, por
meio de debates públicos e abertos, para a formulação
de políticas públicas estruturais que melhor atendam
ao conjunto da sociedade brasileira.
O êxito da digitalização da TV aberta brasileira
pode exercer forte influência sobre a parcela de 2/3 da
humanidade que ainda não definiu suas políticas
públicas em TV digital, incluindo a totalidade dos países
da América Latina. Essa iniciativa pode gerar oportunidades
de exportação para outros países, com impacto
direto na criação de empregos nas indústrias
de conteúdo e de eletroeletrônicos no Brasil.
O projeto e a estrutura desse Fórum sobre TV digital surgiram
de um debate interno prévio em que participaram diversos
grupos que pesquisam o assunto na Universidade de São Paulo.
Diversos laboratórios e grupos de pesquisas de unidades,
como a Escola Politécnica, Escola de Comunicação
e Artes, a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas,
o Instituto de Estudos Avançados e núcleos como
a Cidade do Conhecimento, a Escola do Futuro, a TVUSP, entre outros,
interagiram no sentido de elaborar um programa comum de debates.
Os trabalhos e pesquisas já desenvolvidos sobre TV digital
na USP servem para reafirmar a importância de sua contribuição
na produção científica e para disseminar
conhecimento, com finalidade social e âmbito público.
Privilegiamos
quatro aspectos como campos temáticos do Fórum:
• Modelo e Sistema de Regulação.
• Tecnologia e Desenvolvimento.
• Conteúdo da Programação.
• Inclusão Social e Inclusão Digital.
Esses campos temáticos permitem uma melhor definição
de alguns temas transversais de grande importância, tais
como a criação de um ambiente propício ao
desenvolvimento de pesquisas e da produção cultural,
o estabelecimento de coordenadas para uma política industrial
relativa ao setor, assim como a definição de uma
agenda que auxilie na definição do ritmo de implantação
e coordenação de diferentes trabalhos em pesquisa,
desenvolvimento e produção de bens culturais ou
de equipamentos.
1.
MODELO E SISTEMA DE REGULAÇÃO
Embora
não seja evidente, a determinação do modelo,
isto é, dos conceitos que incorporam uma visão de
longo prazo e definem o âmbito das políticas públicas,
deve anteceder
a
definição do padrão e do sistema. Compreende-se
por sistema o conjunto que inclui toda infra-estrutura e atores
(concessionárias, redes, produtoras, empresas de serviços,
ONGs, indústrias de conteúdo e de eletroeletrônicos
etc). Afinal, é o modelo que determina as condições
de contorno para o estabelecimento do sistema e a respectiva definição
do padrão de TV digital.
A criação de um modelo próprio de TV digital,
apesar de algumas resistências esboçadas, é
perfeitamente factível. Como se sabe, quarenta anos atrás,
com uma capacidade tecnológica muito inferior à
existente atualmente no país, o Brasil foi capaz de criar
um padrão próprio de TV analógica.
A televisão aberta é a única rede de telecomunicação,
no Brasil, gratuita para o consumidor, com cobertura nacional
praticamente 24 horas ao dia. Segundo o IBGE, mais de 90% dos
brasileiros da área urbana têm acesso à TV.
Serviços gratuitos para o consumidor final são prestados
com razoável nível de competitividade entre redes
nacionais de emissoras, empregando centenas de milhares de pessoas.
Ao contrário de outros segmentos de telecomunicações
como telefonia móvel (empresas estrangeiras, capital estrangeiro,
conteúdo estrangeiro e concessionárias estrangeiras),
o legado da TV analógica é constituído por
empresas nacionais, tecnologia nacional, industria nacional e
conteúdo majoritariamente nacional.
A implantação de um modelo para a TV digital consiste
em uma ótima oportunidade para aprimorar o legado da TV
analógica aberta no Brasil. Trata-se de conservar suas
conquistas, a abrangência de sua cobertura, que se estende
por quase todo o país, seu acervo cultural, sua notável
capacitação tecnológica, sua política
de formação de quadros técnicos e sobretudo
os empregos ora existentes. Por outro lado, trata-se também
de uma rara oportunidade para corrigir algumas distorções
do atual modelo, como a concentração da produção
no eixo Rio–São Paulo, a falta de oportunidade para
a veiculação da produção independente
ou da produção cinematográfica nacional e,
sobretudo, para modificar o lugar marginal ocupado pela produção
e disseminação de conteúdos educativos.
Um fator decisivo para o futuro êxito da TV digital no Brasil
assenta-se, certamente, na democratização do acesso
a esse serviço. A oferta de informações interativas
para a maioria das residências contribuirá para promover
um incremento na qualidade de vida, na medida em que amplia a
oferta de serviços de utilidade pública em todas
as camadas da população. Para tanto, convém
estabelecer uma discussão sobre o modelo brasileiro de
TV digital Aberta que leve em conta ações abrangentes
necessárias para sua estruturação, democratização,
implementação e regulação, ações
baseadas no estabelecimento de um conjunto de políticas
públicas estruturais de longo prazo. Para tanto, será
de fundamental importância analisar os modelos já
implantados no país em telecomunicações (TV
analógica, TV por assinatura, Telefonia fixa e móvel)
e em informática.
Essa discussão deve levar em conta o forte potencial da
TV digital como vetor de inclusão social, as implicações
de longo prazo (o modelo atual de TV analógica sobrevive
há pelo menos 40 anos), o elevado volume de investimentos
para a total digitalização da TV, a relevância
do assunto para o consumidor final, as concessionárias
de TV e a indústria nacional e o legado de mais de 50 anos
de história da TV no Brasil.
2.
TECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO
A
introdução e a disseminação da tecnologia
digital no campo da informação acarretaram modificações
profundas na maioria das atividades da sociedade moderna, tais
como o trabalho, a educação, a saúde, a arte
e a cultura, entre outras. A plataforma inicial desta revolução
foi a internet que se expandiu vertiginosamente a partir da constatação,
pela sociedade, de que não se trata apenas de uma ferramenta
confinada ao uso exclusivo da comunidade científica.
A implantação da TV digital no país, iniciada
com a substituição gradual da infra-estrutura atualmente
disponível – que contempla aproximadamente 54 milhões
de televisores em quase todos os municípios brasileiros
–, deve colocar em movimento, nos próximos cinco
anos, um mercado de bilhões de reais.
A
generalização da TV digital, meta a ser atingida
a médio prazo (entre 2004 e 2010), vai promover uma verdadeira
transformação do atual conceito de TV. Ela possibilita
uma convergência com a internet avançada (fixa e
móvel) e o desenvolvimento de meios eletrônicos interativos
minimamente invasivos (dispositivos portáteis, interfaces
naturais, micro-sensores e atuadores). Entre as inovações
esperadas merecem destaque (a) a grande capacidade bidirecional
de intercâmbio de dados multimídia, o que permite
um relacionamento mais sensitivo, personalizado e intuitivo entre
o usuário e a TV/internet; (b) a individualização
no acesso à informação; (c) a integração
de multi-serviços à TV/internet, tais como automação
doméstica, segurança, telejogos, governo eletrônico,
teleducação, telemedicina, telecomércio,
entre outros.
O processo de digitalização da TV consiste, sobretudo,
na produção, transmissão e recepção
dos sinais por meio de bits de informação, o que
possibilita, além da transmissão de sinais de vídeo,
a troca de informações diversas. A maioria das emissoras
geradoras das redes de TV aberta no Brasil já possui estúdios
digitais. Por conseguinte, a dificuldade concentra-se nos vultosos
investimentos necessários à digitalização
da infra-estrutura de transmissão.
Com relação à recepção, é
fato notório que os televisores populares no Brasil possuem
um índice de nacionalização superior a 80%.
Além disso, temos uma capacidade ociosa de fabricação
de 12 milhões de televisores/ano. Atualmente, produzimos
cerca de cinco milhões de televisores, consumidos em todos
os extratos sociais e também exportados para outros países.
Para a indústria eletroeletrônica brasileira, a TV
digital surge como uma oportunidade de constituir uma plataforma
de exportação a partir de uma base industrial já
estabelecida. Entretanto, vale a pena enfatizar o baixo valor
intelectual agregado em nossos produtos e a necessidade de viabilizar
uma indústria de componentes semicondutores que permita
a redução do enorme índice de importação
(de componentes e de propriedade intelectual) no setor.
No que diz respeito a capacidade de agregação de
valor intelectual, a posição do Brasil é
ainda mais debilitada. Não contamos ainda com nenhuma empresa
dedicada ao desenho de componentes semicondutores e sistemas.
Importamos praticamente 100% da tecnologia nesta área,
já que nossas empresas têm se limitado ao redesenho
de embalagens, manufatura e caixas dos produtos.
Torna-se necessário, por conseguinte, definir urgentemente
uma estratégia de política pública que permita
viabilizar, a custo compatível com a situação
do país, uma base industrial local para o atendimento das
necessidades de bens e serviços desse novo padrão
tecnológico, tendo em vista não só o mercado
interno, mas também as oportunidades de exportação.
3.
CONTEÚDO DA PROGRAMAÇÃO
Acreditamos que as questões referentes à produção
de conteúdo para a TV digital devem abordar, sobretudo,
três aspectos:
I.
Cadeia Produtiva e de Valores – indústria
de equipamentos e indústria cultural e de conteúdo
do audiovisual.
É
evidente que o impacto da digitalização e particularmente
da escolha do padrão sobre a produção de
conteúdo será profundo, influenciando os diversos
elos da cadeia produtiva. O próprio conceito de “produção
cultural” pode sofrer uma mudança significativa.
A indústria cultural do audiovisual terá de se adaptar
às novas demandas, o que implica definir procedimentos
que permitam reaproveitar acervos já produzidos em audiovisual
e trazê-los para a tecnologia digital interativa.
A produção de conteúdo é atualmente
a questão chave, quando se pensa em TV digital. O investimento
em tecnologia até agora concedeu muito pouca atenção
a esse aspecto. Sabemos que o conteúdo é o ponto
estratégico, o substrato de qualquer comunicação.
Pensar conteúdo para a TV digital hoje significa partir
de experiências ainda fragmentárias, realizadas em
diversos campos do conhecimento e da produção artística.
Mesmo assim, pode-se tentar antecipar algumas possibilidades abertas
pela digitalização:
(a) Uma vez que a interface, o meio pelo qual o indivíduo
se relaciona com a máquina, determina o grau de utilização
e aceitação do produto, parece claro que numa política
inclusiva e abrangente de TV digital interativa, voltada para
todas as classes sociais, a simplicidade do produto, a facilidade
de uso torna-se fator estimulante do sucesso.
(b) Os serviços e aplicativos a serem oferecidos à
população, bem como a própria produção
de audiovisual, devem levar em conta as exigências e as
demandas de inclusão social e digital, privilegiando serviços
socialmente relevantes e culturalmente importantes. Trata-se de
estabelecer não só aplicativos que permitam a disseminação
da telemedicina, teleducação, governo eletrônico
etc, mas também de elaborar formatos que facilitem uma
gama que se estende desde a inclusão digital até
o acesso a experimentos artísticos ou a jogos e entretenimentos
educativos.
II.
Telespectador
Uma
maior disseminação dos serviços de TV digital
vincula-se à existência de uma estrutura tecnológica
que estimule a participação do usuário na
produção, o que abre espaço para TVs regionais,
TVs universitárias, TVs comunitárias e para a produção
independente. Nesse sentido, cabe pensar a construção
de meios tecnológicos que facilitem a veiculação
da produção autônoma e local de conteúdo,
diminuindo a passividade do usuário e possibilitando sua
inserção autoral; caminho aberto, ainda de forma
incipiente, por ferramentas como o bate-papo, fórum, correio
eletrônico, mensagem eletrônica, sala virtual de discussão,
entre outros. A educação digital, a capacitação
da população para o uso dessa nova tecnologia deve
tornar-se uma meta da escola pública, do governo e da sociedade
em geral.
III.
Formação de profissionais para o mercado
A
capacitação de profissionais especializados, aptos
a dominar as possibilidades abertas pelas novas mídias
audiovisuais, é um elemento decisivo para o êxito
do projeto. Para evitar retardamentos em sua implantação
convém levar em conta a necessidade de promover o aperfeiçoamento
profissional não só no campo das novas formas de
produção de conteúdo, mas também em
áreas como a formação técnica e o
desenvolvimento tecnológico.
4.
INCLUSÃO SOCIAL E INCLUSÃO DIGITAL
Os
modelos atuais de inclusão digital tendem a ampliar o fosso
entre as diversas classes de cidadãos, constituindo redes
de exclusão. A política dos fabricantes de microcomputadores
e de softwares concede prioridade a produtos de capacidade e complexidade
crescentes. Assim, apesar do incremento da produtividade no setor,
mantém-se um patamar de preços, incompatível
com a realidade econômica da maioria da população
brasileira, gerando uma enorme massa de analfabetos digitais.
A TV digital surge como uma nova oportunidade de reverter esse
processo, promovendo a inclusão social por meio da inclusão
digital: ponto relevante não apenas para o Brasil, mas
para os dois terços da humanidade que não foram
considerados pelos padrões atualmente existentes de TV
digital, devido principalmente aos altos custos de utilização
de patentes e a outros registros de propriedade intelectual.
Nenhum dos padrões existentes de TV digital contempla a
oferta desses serviços através do terminal de acesso
e do conversor no patamar de custo exigido pelo espectador brasileiro:
terminais com custo inferior a 1/3 do custo total de um televisor
popular ou aproximadamente R$ 100. A possibilidade de oferecer
esse serviço, a tal custo, à população
brasileira abre a oportunidade de inclusão digital de um
enorme contingente da população que não tem
acesso a outras alternativas.
Além disso, cabe ainda considerar que até hoje as
chamadas políticas de “inclusão digital”
refletiram, sobretudo, o interesse de fabricantes de hardware
e software, interessados na ampliação de seu mercado.
Tratava-se de “incluir” mais indivíduos na
categoria de “usuários”.
A disseminação acelerada dos meios de produção
digitais em todos os setores da economia e da sociedade, fenômeno
conhecido como emergência da “sociedade da informação”,
colocava para empresas e governos o imperativo de incluir “no”
digital tudo o que fosse relevante em suas cadeias produtivas.
A identificação de novas fronteiras de inclusão
tornou-se, portanto, uma das mais poderosas ferramentas de marketing
da indústria de tecnologias de informação
e comunicação.
Embora ainda forte e, a rigor, predominante, a inclusão
“no” digital vem perdendo terreno como horizonte estratégico
para o cenário de uma economia do conhecimento. O desafio
maior não está na substituição de
“sociedade” por “economia” na marca da
contemporaneidade tecnológica, mas, sim, na passagem entre
Informação e Conhecimento. A economia da informação
é, na atual configuração histórica
do sistema capitalista, uma engrenagem que emperra se não
progredir em direção a uma sociedade do conhecimento.
Posto que a inclusão que interessa (do ponto de vista do
interesse público e nacional) não é a “no
digital”, mas “no conhecimento”, os processos
de inclusão “pelo digital” oferecem oportunidades
de multiplicação de elos cooperativos que, ao lado
do fortalecimento de uma ética de responsabilidade social,
proporcionam também o horizonte de criação
de novos mercados e portanto de novas oportunidades para a geração
de emprego, renda e investimentos, com destaque para o cenário
de convergência digital na televisão.
O desenho e a implementação de políticas
setoriais, voltadas para a formação de redes digitais
e para a inclusão, deve contemplar um modelo quadripartite,
em que estejam articulados, numa estratégia de desenvolvimento
nacional, o setor público, o setor privado, o terceiro
setor e a academia.
TEMAS
TRANSVERSAIS
A
implantação da TV digital exige o estabelecimento
de uma série de políticas públicas, tais
como:
a) Política de transmissão simultânea
do sinal analógico e do sinal digital e cronograma de digitalização
dos canais.
É evidente que por algum tempo as transmissões
de TV no país devem oferecer simultaneamente canais digitais
e analógicos, posto que a transição não
pode ser instantânea. Além disso, deve-se estabelecer
o prazo final para o término das transmissões analógicas
(na Europa e nos Estados Unidos a previsão é de
uma data posterior a 2010). Cabe ainda ao poder público
estabelecer prazos para a digitalização das atuais
redes de televisão assentadas em canais analógicos.
b) Fomento a novas redes puramente digitais.
Atualmente, praticamente não há a
possibilidade de estabelecimento de novas redes pela indisponibilidade
de canais analógicos. Com a disponibilidade de novos canais
digitais, além da digitalização dos existentes,
há a possibilidade de concessão de novos canais
de TV puramente digitais, medida que pode ampliar a concorrência
entre emissoras.
c) Oferta de serviços interativos de utilidade pública.
Alguns países, como os Estados Unidos, já
incorporam em sua política de regulamentação
da televisão a oferta de serviços interativos de
interesse do Estado e da sociedade. Esses serviços de utilidade
pública podem ser oferecidos na matriz digital (governo
eletrônico), facilitando o acesso a serviços e benefícios
de vários ministérios como os da Educação,
Saúde, Previdência, Trabalho, Bem-Estar Social, etc.
Nesse sentido, torna-se imprescindível discutir várias
modalidades de canal de retorno, para viabilizar a inclusão
digital.
d) Fortalecimento das TVs educativas.
Da mesma forma que, durante o período da implantação
da TV analógica, as TVs educativas voltam a desempenhar
um papel fundamental. Em colaboração com as TVs
universitárias, elas podem funcionar como laboratórios
de formação de quadros de profissionais e, sobretudo,
como espaço de experimentação.
e)
Estabelecimento de estações piloto de TV digital
Nas etapas iniciais da implantação
da TV digital torna-se necessário recorrer a estações
piloto de TV digital. Elas constituem verdadeiros laboratórios
experimentais de testes e avaliações. Seria prudente
que fosse implantada, com o apoio do Ministério da Ciência
e Tecnologia, pelo menos uma estação piloto por
região do país.
f) Estabelecimento de uma política industrial no setor
eletroeletrônico.
Tendo em vista as dimensões do mercado de
aparelhos de TV digital, convém estabelecer uma política
setorial industrial que exija, além de um alto grau de
nacionalização, o incremento da pesquisa realizada
no Brasil, de modo a reduzir nossa defasagem e dependência
tecnológica. Convém lembrar que se trata também
de uma oportunidade de fomentar indústrias nacionais de
semicondutores.
g) Exigência de plataformas de terminal de acesso aberto
para fomento à indústria de software.
Uma exigência fundamental no modelo da TV
digital é a adoção de terminais de acesso
aberto. Esta política pode propiciar o florescimento natural
de todo um segmento de pequenas e médias empresas, dedicadas
ao desenvolvimento de softwares adequados às aplicações
de TV digital e a serviços interativos.
h) Incentivo ao estabelecimento de um sistema de ensino e formação
em TV digital.
Os mais de 100 mil técnicos brasileiros de
TV precisam ser atualizados. Cursos superiores em engenharia de
TV podem ser criados nas diversas universidades públicas,
e cursos profissionalizantes nas escolas técnicas. Na área
de conteúdo, há poucos cursos de formação
de profissionais em produção audiovisual digital
no país.
i) Desenvolvimento do padrão nacional.
Os eventuais padrões desenvolvidos no Brasil
só devem ser adotados após uma comparação
exaustiva com os outros padrões existentes. Essa avaliação
criteriosa transformaria nosso esforço em mais uma alternativa
para outros países do mundo que ainda não definiram
seus padrões. Cabe salientar que o Brasil foi o primeiro
país do mundo a testar comparativamente os três padrões
já existentes, tornando-se referência mundial na
área.
Como em qualquer processo de padronização mundial,
a diversidade, a discussão e a análise transparentes
devem ser contempladas. O padrão não pode ser rígido
e fechado, e sim flexível e aberto. Deve prever cenários
de longo prazo, fundamentados num intenso diálogo entre
as partes interessadas.
Cabe
observar que o ciclo total de implantação da TV
digital será longo (entre 8 a 20 anos). A definição
de modelos, sistemas e padrões, por meio de políticas
públicas, pode ditar o ritmo e o cronograma da implantação.
Devemos evitar políticas protelatórias que dificultem
a adoção de um padrão determinado (o que
acarretaria um enorme atraso com implicações negativas
para todos), assim como, no extremo oposto, a adoção
de um padrão assentado em uma reserva de mercado que dificulte
a competitividade e o avanço tecnológico, desestimulando
o desenvolvimento de soluções próprias, relevantes
para a nossa sociedade e para o mundo.
Esta tarefa exige um debate público amplo com os setores
envolvidos com o tema da TV digital no Brasil. Para tanto, o Fórum
Políticas Públicas, na USP, convida os representantes
do governo e das universidades, a sociedade civil, os setores
industriais, os produtores de audiovisual, a emissoras e demais
atores envolvidos para uma discussão pública, a
ser realizada no início do segundo semestre de 2003.
Universidade
de São Paulo, 02 de julho de 2003.
LISTA
DE ASSINATURAS
Participantes do grupo de discussão
Autores do documento
| Adriano
Adoryan |
TV
USP |
| Afonso
Carlos Correa Fleury |
PRO
/ EPUSP |
| Almir
Antonio Rosa (Almir Almas) |
CTR
/ ECA |
| André
Leme Fleury |
Cidade
do Conhecimento / IEA |
| Cláudio
Yutaka |
TV
USP |
| Esther
Hamburguer |
CTR
/ ECA |
| Gilson
Schwartz |
Cidade
do Conhecimento / IEA |
| Graça
Bressan |
LARC
/ EPUSP |
| Gustavo
Blengini Faria |
CCE
/ USP |
| Laerte
Idal Sznelwar |
PRO
/ EPUSP |
| Luis
Fernando Angerami |
CTR
/ ECA |
| Marcelo
Knorich Zuffo |
PSI
/ EPUSP |
| Maria
Dora Mourão |
CTR
/ ECA |
| Mariana
Reis Balboni |
Cidade
do Conhecimento / IEA |
| Marília
Franco |
ECA
/ USP |
| Mauro
Zilbovicius |
PRO
/ EPUSP |
| Pedro
Ortiz |
TV
USP |
| Regina
Melo Silveira |
PCS
/ EPUSP |
| Regis
Rossi Alves Faria |
LSI
/ EPUSP |
| Renato
Garcia |
PRO
/ EPUSP |
| Ricardo
Musse |
FFCLH
/ USP |
| Roberto
Marx |
PRO
/ EPUSP |
| Thais
Waisman |
EF
/ USP |